Na Geral – Entrevista com Juca Kfouri, Parte 1

By Rodrigo Ferreira

Esta é uma série de entrevistas com os jornalistas e blogueiros que fazem o dia-a-dia da informação e opinião esportiva na internet.

Sem mais apresentações, segue a primeira parte da entrevista com o jornalista Juca Kfouri, autor do mais visitado blog esportivo do país.

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Geraldinos: Quem é hoje Juca Kfouri?
Juca Kfouri: Um blogueiro. Como você bem sabe, o blog acaba exigindo 24 de dedicação. Se você não publica muitas notas, o pessoal reclama, pergunta se está de ferias ou doente, com problemas na família.

Quando eu fui para o UOL, ou seja, quando voltei para a Folha, o contrato exigia que eu escrevesse uma nota por dia, de segunda a sexta. Nada de fins de semana. Fui dormir pensando: se amanhã 10 mil pessoas tiverem acessado, eu vou dormir feliz. Aí, fiz a primeira nota. Entrou no ar as 10 horas da manhã. Às 4 da tarde, tinham 60 mil visitas. E pensei: “não é possível deixar todas essas pessoas com uma nota só. Preciso fazer alguma outra coisa”.

A partir daí, o blog vai fazer 3 anos, não houve um dia em que eu não escrevesse alguma coisa. Inclusive nas férias. Tenho sempre que inventar alguma coisa, como o campeonato de seleções de todos os tempos.

G: E o que fez para chegar a ser esta pessoa?
JK: Se eu tivesse que definir em uma frase: Eu não curvei a espinha. Como disse o Millor Fernandes, “quem se curva aos poderosos, mostra a bunda aos oprimidos”. Eu não fiz isso.

G: O que é o sucesso para um jornalista?
JK: É ser respeitado, ter credibilidade.

G: Você, no começo dos Geraldinos disse: “mas quem sabe se um dia o jornalista não poderá viver apenas do respaldo dos leitores que queiram acompanhar o seu trabalho, realização do velho ideal de fazer, de fato, do leitor o único patrão do homem de imprensa?”. Algo mudou de lá pra cá?
JK: Acho que não. Porque ainda não se resolveu a equação, que não é simples, relativa aos blogs. Que é: como recolher aqueles que de fato querem pagar, ao menos R$2,00 por mês, para ter acesso ao seu blog.

Digamos que no mundo você tenha 30mil pessoas interessadas em pagar. Pronto, você tá com a vida ganha. Mas como resolver a equação em que o depósito desses R$2,00 não seja mais caro do que a operação bancária em si.

Isso talvez tenha uma solução um dia com uma cooperativa de blogueiros, que una uma massa que justifique. Mas eu acho que este caminho ainda está aberto.

G: Hoje, o que motiva um jornalista que trabalha com opinião e blog?
JK: A quixotesca pretensão de fazer com que as coisas melhorem.

G: E você, mesmo vivendo de opinião, ainda se considera um jornalista?
JK: Absolutamente, sem dúvida nenhuma.

G: Como é conviver com a fama? Entrevistar pessoas menos conhecidas que você? Isto era esperado?
JK: Eu não tenho esta noção. Felizmente. Eu acho que é uma diferença muito grande entre ser notório e ser famoso. Se tivesse uma lei que obrigasse todo caixa de banco a colocar a cara na tela, o cara entraria em um restaurante e, na hora, alguém gritaria “olha lá o caixa do tal banco!”. Como não tem, as pessoas acabam se apegando a quem aparece na televisão. Isso é notoriedade. Famoso é o Chico Buarque de Holanda.

Eu acho isso. Sigo a risca a coisa de “não ficar bestinha”. Isso até me incomoda. Eu preferia ser mais anônimo do que sou. Até porque o não-anonimato me atrapalha em um monte de coisa. Coisas que eu podia fazer anos atrás e hoje eu não posso, que eu tenho que pedir que façam pra mim.

G: Mas é inegável que você se tornou uma figura popular, que inclusive tem milhares de fãs no orkut.
JK: Pois é. Mas eu nunca entrei no orkut. Nem sei como isso funciona.

G: Ser conhecido pela rigidez de moral e ideais, não cria um preconceito ou um bloqueio à sua imagem?

JK: Eu acho que sim. No fundo, é uma burrice o que as pessoas dizem, que eu sou “o paladino da moral”. Que paladino coisa nenhuma! São as pessoas que fazem isso. Você me vê defender posições, meus princípios. Mas nunca me viu bater no peito e dizer “porque eu! porque eu!”. Que nada. Primeiro, porque eu não acho que faça nada além da minha obrigação. Segundo, porque tenho consciência de todas as cagadas que eu já fiz na minha vida. Tentei limpá-las, nunca fiz por querer. Nunca fiz de sacanagem. Mas reconheço as besteiras que cometi. O Raí me disse que eu devia sofrer muito. Não, eu não sofro. Eu só procuro seguir o que eu herdei do meu pai, e ele não sofria.

Eu não sofro, eu faço naturalmente.

Tem o seguinte, quando você tem uma imagem de uma pessoa séria, ninguém chega pra você pra propor uma armação. Porque não vai dar em nada. Eu não preciso dizer para você que tenho medo de um dia cair em tentação, porque a tentação sequer bate à minha porta.

G: O que você ganha com tamanha rigidez?
JK: Eu ganho uma vida muito melhor do que a que eu imaginei quando comecei minha carreira de jornalista. Tenho um carro, uma casa, tudo melhor do que eu imaginava. Viajo para onde eu quiser.

Se não for por virtude, faça por oportunismo. Eu me dei bem sendo assim.

G: Ao ser tão duro com algumas pessoas, a falada imparcialidade do jornalista não é afetada? Como lidar com Luxemburgo por exemplo?
JK: Eu tenho muita clareza. O Luxemburgo é um dos melhores técnicos do futebol brasileiro. Mas eu, como torcedor, não quero ele como técnico do meu time. Quando ele foi técnico do Corinthians, eu pedi licença. E olha que eu não fiz isso nem com a MSI.

Porque eu acho que ele, no frigir dos ovos, faz mal aos clubes que ele dirige. Ganham uma coisa aqui e ali, mas deixa o clube exaurido. Ele está mais preocupado com o próprio umbigo do que com os clubes. Eu não gosto do estilo dele.

G: Como seria, em uma frase, a nota do Blog do Juca em uma suposta final de Copa do Mundo em 2014 no Brasil, com o Brasil campeão, Luxemburgo como técnico e Ricardo Teixeira presidente da CBF?
JK: Brasil hexa (ou hepta) campeão mundial, apesar de tudo
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Amanhã a segunda parte!

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3 Respostas para “Na Geral – Entrevista com Juca Kfouri, Parte 1”

  1. Rodolfo Disse:

    Boa, Rodrigo! E eu faço a mesma análise do Luxemburgo! O que o JUca disse, alías, é bem evidente.

  2. Bruno Disse:

    Juca é “O Cara”.

  3. Baruque Disse:

    Concordo com Juca Kfouri, bom mesmo é uma bela final com jogos de
    ida e volta. O Campeão Brasileiro deste ano poderá ser conhecido
    pelo número de vitórias, um absurdo. Não tem emoção, tem tensão.
    Quatro rebaixados é demais, significa 20% do total de clubes.

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