Segunda parte da entrevista com Juca Kfouri
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Geraldinos: Qual o maior momento da sua carreira?
Juca Kfouri: Veja bem, tem duas avaliações. A de fora e a pessoal.
Se você perguntar, qual foi a coisa que fiz em jornalismo que mais me orgulha, que mais me agrada, foi descobrir a identidade do Carlos Zéfiro. Até porque demonstra que o jornalismo investigativo não é sinônimo de denúncia, de que alguém precisa se ferrar por causa da matéria. Até o contrário, foi uma matéria que fez bem para o seu Alcides (Aguiar Caminha /1921-1992). Esta é a coisa que mais me orgulha.
Agora, o que me consolidou como jornalista. E que eu apenas comandei, nem fui eu quem fiz, pois quem fez foi o Sérgio Martins, foi a denúncia da máfia da loteria esportiva em 1982 na Revista Placar.
G: Um momento para esquecer?
JK: A minha aproximação extremada com o Rei Pelé.
G: É possível ser amigo de um jornalista?
JK: Não pode. O jornalista só pode ter amigo jornalista. Fonte não é amigo. Porque entre a fonte e a notícia, eu não tenho a menor dúvida em publicar a notícia. Jornalista, neste aspecto, é uma das profissões mais solitárias que há.
G: Quais suas lembranças da época de Geraldino?
JK: As melhores possíveis. Uma delas voltando de Belo Horizonte depois de uma derrota para o Cruzeiro na Final da Taça de Prata em 69, época em que Dirceu Lopes e cia acabaram com o Corinthians.
Voltando de ônibus, sem nenhuma janela intacta, com todos os vidros apedrejadas pela torcida do Cruzeiro, eu estava dormindo quando um negão que até então não tinha aberto a boca pra falar nada, nem na ida, nem na volta, colocou a mão na minha perna e disse assim: amigo, briguei com as minhas duas mulheres pra vir nesse jogo e o coringão me perde? É foda amigo! É foda! É o coringão! É o coringão!”, me levantou gritando “é o coringão, é o coringão!”.
Todo mundo acompanhou, colocaram as bandeiras pra fora e começaram a cantar. Éramos nós, entrando em São Paulo pela Fernão Dias, com o dia amanhecendo, o ônibus já desgarrado da caravana e as pessoas indo para o trabalho olhando aquilo e pensando o quão malucos eram aqueles caras. Naquele dia o campeão do Brasil era o Palmeiras, que tinha ganhado do Botafogo. Ninguém acreditava naquilo. E era coisa de maluco mesmo.
G: E Quais as conseqüências para a sua carreira de admitir ser corintiano?
JK: Olha, no dia-a-dia, traz mais chateação do que benefício. Mas a médio-longo prazo, não tenho dúvida que traz mais credibilidade. As pessoas sabem que você não engana. Mas sou acusado pelos corintianos de não ser corintiano, de ser crítico. E os outros acreditam que eu alivio para o Corinthians.
G: O Herbert Vianna certa vez disse que o acidente mudou sua forma de ver o público. Que antes ele corria de um lado para o outro, buscando se divertir e entreter os espectadores. Mas hoje, na cadeira de rodas, ele pode olhar nos olhos do público e entender o que eles querem e o que sentem. Você acha que o blog te coloca nesta mesma posição, mais próximo do seu público?
JK: O blog, sem dúvida, te permite mais interação que nenhum outro veículo dá. Você sabe com quem você está falando.
O que o Herbert Viana disse, e está certíssimo, é realmente verdadeiro nas palestras. Onde você olha no olho das pessoas. Você age de acordo com a expressão e a reação das pessoas. Assim, procura evitar alguns temas ou até se alonga em seus argumentos até fazer o público concordar. Por intimidação ou por argumento.
Mas a interação no blog faz uma diferença brutal. Na televisão ou no rádio, você no máximo imagina, fica mais fácil falar. No blog, você pega o retorno, conhece o seu leitor.
G: O que te dá mais prazer profissionalmente? TV, Rádio, Jornal ou Internet?
JK: Não há nada que me dê mais prazer que o rádio. Aqui eu me divirto uma barbaridade fazendo o programa. Às vezes eu chego aqui com 500 quilos nas costas e saio leve como uma pluma. Sempre brinco que ainda me pagam para fazer isso. Se eu tivesse que pagar para vir para cá, sairia mais barato do que uma terapia. Mas me pagam para fazer isso.
Talvez tenha sido a única coisa que eu me arrependa na minha carreira. Ter demorado tanto para fazer rádio. Comecei em 2000 e eu não tinha idéia do quão gostoso é.
G: Você ainda espera alguma coisa da sua carreira?
JK: Espero. O que, eu não sei. Eu espero a mesma coisa que eu nunca esperei. Porque as coisas sempre foram acontecendo. Se você me dissesse que eu seria editor da Placar, eu diria que você estava maluco. Da Playboy então? Mas nunca! Trabalhar na Globo? Não há hipótese!
As coisas foram acontecendo. No meio do caminho, alguma pessoa chegou e falou que gostaria que eu fizesse isso ou aquilo e eu fui fazendo. Tenho pra mim que o fato de os imprevistos da vida conduzirem a sua carreira é melhor do que planejar. Porque o cara quando planeja alcançar algo, ele precisa pisar em algum pescoço. Quando as coisas vão acontecendo, aconteceram. Você pode até deixar pessoas que pretendiam aquilo chateadas, mas você não tem nada a ver com isso.
G: Qual a solução para o futebol brasileiro? Quem seria, hoje, o profissional ideal para conduzir a profissionalização do futebol?
JK: A solução é exatamente a profissionalização. Com os clubes sendo tratados feito empresas, responsabilizados como empresas. E para realizar isso, existem centenas de pessoas capazes, profissionais gabaritados para conduzir este processo.
G: Alguém dentro do futebol?
JK: Sim! O Tostão, por exemplo, com a cabeça que tem. Até o Parreira poderia, se não fosse tão subserviente como se revelou na Copa de 2006. Mas que tem gente, isso tem!
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Valeu Juca, é sempre uma aula! Semana que vem, Vitor, ou Victor, Birner!
Tags: Blogs, Entrevista, Esporte, Jornalismo, Juca Kfouri
12 / Setembro / 2008 às 12:44 |
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