O corinthiano ganha quando o Corinthians perde

By Rodolfo Borges

Quando o Corinthians caiu para a segunda divisão do campeonato nacional, em 2007, houve quem imaginasse que se iniciava ali uma era de crise para o clube do Parque São Jorge. Bem, foi exatamente isso o que aconteceu, só que, para um corinthiano, a palavra “crise” tem um sentido inverso àquele a que todas as outras torcidas estão acostumadas. No Corinthians, a crise não é uma oportunidade para crescer; ela é o próprio crescimento.

Não tenho certeza se isto está relacionado à vocação masoquista de todo corinthiano, a essa necessidade que ele tem de sofrer pelo time, mas é preciso reconhecer que a perversão veio bem a calhar. É de conhecimento geral que o corinthianismo é uma doença, e, como tal, precisa de um ambiente ruim e mal tratado para se desenvolver. Traduzindo para o ambiente futebolístico, isso significa que o Corinthians precisa da derrota para se manter, ou melhor: a derrota está para um corinthiano assim como a vitória está para qualquer outro torcedor.

Você deve estar se perguntando como um torcedor pode querer o mal do seu próprio time. A questão é paradoxal mesmo, e eu não vejo uma figura melhor para representar a essência do corinthiano do que a mulher do malandro. Essa senhora não é capaz apenas de agüentar todo o tipo de agressão do parceiro. Ela consegue amá-lo apesar de tudo.

Ainda que ele passasse mais de 20 anos sem lhe dar um único presente ou que suas presepadas os forçassem a se mudar dos Jardins para o Capão Redondo, ela lhe continuaria fiel. Para aqueles que acham que é pouco, ela vive por ti, malandro.

Eu não estou dizendo que o torcedor alvinegro vai ao estádio para secar o seu time; muito pelo contrário. Acredito que o corinthiano deixa sua casa rumo ao Pacaembu com o intuito de empurrar a equipe para a vitória. Só que lá no fundo, num canto escondido de sua alma, doutor, eu não me engano, o coração corinthiano clama por uma derrota; e está disposto a aceitar, no máximo, uma vitória sofrida – tudo isso enrustido, naturalmente, escondido debaixo da asa de um gavião.

É por essas e outras que, para jogar no Corinthians, o atleta não precisa ser craque. Basta mostrar alguma atração pelo sofrimento, distribuir carrinhos pelo campo, tentar evitar arremessos laterais inevitáveis, jogar no sacrifício, e por aí vai. E como essa torcida fica feliz por poder protestar quando identifica um atacante fazendo corpo mole!

O corinthiano gosta de raça, mano; e, acredito eu, se um jogador da sua equipe mostrasse algum empenho na tentativa bem sucedida de marcar um gol contra, a Fiel, finalmente livre da âncora moral que a impede de desabrochar, explodiria em aplausos eufóricos, revelando ao mundo sua verdadeira vocação paradoxal para o sofrimento.

Por tudo isso, eu digo que o ano de 2008 inaugura a época mais profícua em décadas para a torcida do Corinthians. Disputar a segunda divisão é o martírio mais prazeroso que um corinthiano poderia pedir a São Jorge, e a condição perfeita para a disseminação do corinthianismo pelo país. Neste momento, a torcida alvinegra se expande descontroladamente.

A parceria duvidosa com a MSI foi um golpe de mestre da diretoria corinthiana. Ali tem um bando de louco, mas eles não são bobos, não. Eles sabem que o corinthiano precisa sofrer. E, ao que tudo indica, o discutível título do campeonato nacional de 2005 foi premeditado exatamente para aumentar a dramaticidade do rebaixamento que viria dois anos depois.

O que eu quero dizer, no final das contas, é que o torcedor do Corinthians está sempre satisfeito, apesar de se mostrar contrariado mesmo nas vitórias. Acreditem, é só charme. Por mais que tente esconder, o corinthiano sempre sai ganhando; principalmente quando perde.

Leia, também, o perfil do flamenguista.

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15 Respostas para “O corinthiano ganha quando o Corinthians perde”

  1. Rodrigo Ferreira Disse:

    fato que comprova a doença diagnosticada pelo rodolfo é que a torcida corintiana cresce mais sempre quando o time enfrenta grandes dramas.

    Como o jejum de títulos de 20 anos e que terminou em 77.

    assustador e considerado o maior titulo da historia do time, num paulista, numa final com a ponte preta e com um gol de bate e rebate.

    é, isso é corinthians

  2. Rafael dos Anjos Fontenelle Duarte Disse:

    Caramba Rodolfo! Por um momento cheguei a pensar que esse texto se tratava de mais uma falácia emotiva, fruto da discordância futebolística entre torcedores. Mas não! Depois de analisar o conteúdo desse texto apaixonado, vi q realmente vc gosta do Corinthians… Talvez até ame! E o que é o mais interessante, da mesma forma paradoxal e auto-contraditorio. Em vez de ser pelo sofrimento e ódio, é pelo amor, também escondido lá no fundo do peito.
    Mas isso é muito natural. Não dizem que amor e ódio andam de mãos dadas? No caso do futebol é pior; uma até precisa da outra para existir. Amamos quando pensamos odiar, odiamos quando pesamos amar.
    Dessa forma Corinthianos receberão com ódio (amor), mais uma critica feita com amor (ódio), de um… São Paulino?!

    hehehehehe… só pra criar polemica!
    Abraço amigos!

  3. Rodolfo Disse:

    Belo diagnóstico, Rafael! De fato, no fim das contas, se esse texto incomodar de alguma forma os corinthianos, considerando que eles também gostem de sofrer em nome do time (e não apenas por ele), terei feito um belo afago nos corações alvinegros.

    Mas lembre-se de que eu não sou corinthiano, e esse perfil paradoxal aplica-se a quem torce para o Timão. Não espere de mim tamanha confusão sentimental; meu pecado é outro. A próxima vítima é o são-paulino. Leia na próxima segunda-feira e você me entenderá melhor.

    Abraço!

  4. Rafael dos Anjos Fontenelle Duarte Disse:

    É isso ai! E tb não sou Corinthias. Foi so pra criar um debate, levantar mais lebres. Achei perfeito a sua explicação sobre a “crise” do alvinegro, permanente e necessaria. A colocação do Rodrigo também é muito legal sobre um time de grandes dramas, q invoca sempre o jejum de 20 anos. Tudo isso é a cara do Corinthians!
    Agora pode ter certeza… vou aguardar ansiosamente a proxima segunda.
    Quero ver oq sair contra o São Paulo.

    Ah! Eu li o texto sobre os Flamenguistas…rsrsrrss
    A pesar de ser Flamenguista tenho q aceitar que ficou a cara da turminha!
    Abraço!

  5. Rafael dos Anjos Fontenelle Duarte Disse:

    Tirando a parte da Copa União é claro. Essa ta muito bem documentada.

  6. Rodrigo Borges Disse:

    Meu destaque vai para “Para aqueles que acham que é pouco, ela vive por ti, malandro.”

    Onde estão os corinthianos? Onde está a polêmica?

  7. Rodolfo Disse:

    Aparentemente, os corinthianos gostaram, como era de se esperar. Rafael estava certo.

  8. Paulo Mesquita Disse:

    AUhauAHuAHuAhAUhAUAHuAHuA
    Fantástico!

    “a derrota está para um corinthiano assim como a vitória está para qualquer outro torcedor.”
    É bem isso mesmo…

  9. O São Paulo mimou demais o são-paulino « Os Geraldinos Disse:

    [...] também os perfis do corinthiano e do [...]

  10. 5-3-3 Disse:

    Rapaz, é bem isso mesmo, eles adoram sofrer, pois que sofram.
    Ri muito deste texto, você falou tudo.
    huahuahua

  11. Thalita Kalix Disse:

    Desculpem, vou ter que discordar… O texto é muito bom, mesmo. O que não me espanta em nada vindo de você, Rodolfo. Mas, poxa – lá no fundo o corinthiano torce é pro time perder? Nem tanto, né??
    Sim, nós corinthianos valorizamos muito vitórias suadas. Sim, também não exigimos apenas qualidade, mas acima de tudo garra. Mas daí a torcer pro Timão perder é demais!

  12. O Fluminense perdeu a majestade. O tricolor, não « Os Geraldinos Disse:

    [...] também os perfis do santista, do botafoguense, do são-paulino, do corinthiano e do [...]

  13. Só um botafoguense acreditaria no Botafogo « Os Geraldinos Disse:

    [...] também os perfis do são-paulino, do corinthiano e do [...]

  14. O palmeirense é o torcedor mais ingênuo do país « Os Geraldinos Disse:

    [...] os perfis do vascaíno, do tricolor carioca, do santista, do botafoguense, do são-paulino, do corinthiano e do [...]

  15. O Santos fez do santista um saudosista « Os Geraldinos Disse:

    [...] também os perfis do botafoguense, do são-paulino, do corinthiano e do [...]

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