O Botafogo está irresistível. O time não perde há 11 jogos, goleia com freqüência e tem se apresentado com muita competência desde a chegada do técnico Ney Franco. A coisa vai tão bem que o alvinegro carioca freqüenta a zona de classificação para a Libertadores da América há algumas rodadas. Não me diga, contudo, que você acredita que o Botafogo ganhará esse campeonato, ou, menos que isso, que conseguirá se classificar para o campeonato continental do próximo ano.
Não temos motivos para acreditar em nenhuma dessas possibilidades. Quantas vezes você já viu esse mesmo filme? O Botafogo joga bem, encanta até as torcidas adversárias, mas perde no final. E quem dera essa sina fosse recente. É a própria história do clube de General Severiano que me credita a dizer que é impossível acreditar no Botafogo. A não ser que você seja botafoguense.
O Botafogo não ganha um título importante há quase 15 anos (o Brasileiro de 1995 foi a sua maior glória), e as derrotas épicas de seus times transformaram o botafoguense em motivo de piada, num personagem de anedotas comparado apenas ao papagaio, ao português e à loira burra. Vai dizer que nunca ouviu “tinha um papagaio, uma loira e um botafoguense no navio…”, e por aí vai?
E, ainda assim, apesar de saber que há coisas (sempre ruins) que só acontecem com o Botafogo, seu torcedor continua confiando no triunfo alvinegro. É por isso que eu digo que o botafoguense é o torcedor mais religioso do Brasil. Ele não tem motivo nenhum para acreditar na Estrela Solitária, mas acredita. Quer definição melhor para o termo “fé”? Aos meus olhos, inclusive, é mais fácil crer em Deus do que no Botafogo.
Olhe à sua volta. Árvores, água, céu, ar. Alguém ou algo deve ter pelo menos criado tudo isso. Se for um pouco mais além, você vai considerar que isso tudo a que nós chamamos de natureza necessita de alguma força que a mantenha funcionando. Daí para aderir a alguma religião é um pulo. Mas que indícios, que provas existem para que alguém confie num título do Botafogo perante tantos reveses?
Eu tenho dificuldades para acreditar que o Botafogo ganhou mesmo quando todos os jornais me informam sobre uma goleada alvinegra; mesmo quando assisto à vitória pela televisão – numa vi um triunfo do Botafogo in loco. Gol do Botafogo, para mim, só se for com truque de espelhos. Eu duvido até daquele tal de Garrincha – ou você acredita mesmo que o pessoal ficava sambando na frente da bola quando ele ameaçava arrancar com ela?
E, por falar em Garrincha, as glórias desse clube estão ficando tão antigas que seus triunfos começam a ganhar o status de lenda – o que atribui a sua história um quê de escritura sagrada. Nilton Santos, Zagallo e Garrincha já viraram figuras míticas, capazes de abrir o gramado ao meio, transformar um pênalti numa falta fora da área ou driblar um time inteiro. Duas vezes.
Não me leve a mal, eu não digo isso tudo por sadismo ou maldade. O Botafogo simplesmente me condicionou a duvidar do seu sucesso. Os constantes e surpreendentes fracassos do Alvinegro carioca não me permitem vislumbrar a possibilidade do contrário acontecer. Aliás, eu tenho a impressão de que os únicos imunes a esse efeito são os próprios torcedores do Botafogo. Que outro motivo eles teriam para ir ao estádio senão a crença absurda de que o seu time irá ganhar o jogo?
É uma fé muito curiosa, a botafoguense. Sem explicação ou justificativa, como qualquer outra. Mas outro dia eu conheci uma professora apaixonada por esse clube e as coisas passaram a fazer mais sentido para mim. Quer dizer, existe profissão mais perfeita para um botafoguense do que a docência? Num país em que não se dá a mínima para a educação, o que leva um professor a acreditar que pode contribuir de alguma forma para a nação por meio do ensino?
Todavia, ele acredita, e, misturada a uma boa intenção, sua crença faz dele uma espécie de herói. O professor é mal pago, subestimado e desrespeitado, mas ele se sacrifica em nome do futuro do país, e sem esperar em troca nada além da satisfação do dever cumprido.
Enxergo um pouco desse heroísmo no botafoguense. Seu clube tem um histórico horrível, sofre viradas desastrosas e perde corriqueiramente para equipes piores do que ele, mas o botafoguense (um herói em cada jogo) continua acreditando que torcer pelo seu time é a coisa certa a se fazer, e o faz sem pedir nada em retribuição. Basta-lhe a promessa duvidosa do sucesso.
Tudo isso fez do alvinegro carioca o torcedor mais dócil do mundo. É como se os anos de calvário interminável tivessem conduzido o botafoguense a algum tipo de nirvana. Não existe ninguém mais simpático do que um torcedor do Botafogo, esse devoto à espera do título prometido. O botafoguense é tão pacato que nem se incomoda de ouvir falar mal do seu time ou de sua torcida.
Não acredita? Então experimente: aproxime-se de um torcedor do Fogão e diga tudo isso que eu lhe disse. É capaz de ele lhe dar um abraço. E se você continuar cético mesmo depois disso, reconsidere uma última vez. Se tem gente que acredita até no Botafogo, que motivos você teria para não acreditar em mim?
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Leia também os perfis do são-paulino, do corinthiano e do flamenguista.
Tags: Botafogo, botafoguense, Perfil
29 / Agosto / 2008 às 08:32 |
Tá mudado mesmo, hein?
29 / Agosto / 2008 às 10:38 |
adorei…. ahahahaha
por mais simpatia que tenha pelo botafogo.
em breve coloco um texto de Nelson Rodrigues, datado de 57 que diz exatamente a mesma coisa.
ou seja, a história é a mesma há 50 anos!
29 / Agosto / 2008 às 12:07 |
Rodolfo, não te conheço, mas sou irmã do Tadeu.
Vc se inspirou nele pra escrever esse texto? Realmente é a descrição perfeita, principalmente a parte de criticar e ganhar um abraço como agradecimento!
É uma fé intransponível a dessas pessoas! O Rodrigo assina em baixo o que estou dizendo.
Abraços
29 / Agosto / 2008 às 12:47 |
Soninha, pelo jeito o Tadeu é um botafoguense genuíno.
29 / Agosto / 2008 às 14:52 |
Sem por nem tirar
29 / Agosto / 2008 às 15:14 |
eu assino embaixo!
o tadeu é, de fato, um botafoguense jenuino!
29 / Agosto / 2008 às 18:47 |
Ok. Sou um botafoguense. Genuino ou não…. e realmente sou capaz de dar o abraço seguido de uma brincadeira. A torcida do Botafogo realmente tem fé no time, e não deixa de acreditar. Assim como agora eu acredito, e no fim do campeonato a gente conversa sobre, que o botafogo fica entre os 4.
Prova da definição do Rodolfo está nas músicas entoadas pela torcida.
Momentos ruim eu já vivi.
Mas nunca parei de cantar.
E esse FOGO no meu peito.
Nunca vai se apagar.
Fogo ole ole ole!!!!
30 / Agosto / 2008 às 02:34 |
Tadeu, ainda que o Botafogo consiga a classificação, eu não vou acreditar. É isso o que nos diferencia.
30 / Agosto / 2008 às 11:49 |
“O botafoguense é o torcedor mais religioso do Brasil”.
Perfeito isso!
Engraçado!! Eu sempre tive essa sensação de que o Botafoguense era o torcedor mais escrupuloso e dócil do nosso futebol.
A imagem perfeita que eu faço é a do meu falecido avô. Botafoguense dos tempos de Nilton Santos, Didi, e Garrincha. Homem sábio e meticuloso, de poucas palavras, e acima de tudo temeroso a Deus.
Tipo de pessoa que padece com paciência… Um verdadeiro Botafoguense!
2 / Setembro / 2008 às 15:09 |
Grande Rodolfo,
Como verdadeiro botafoguense me deu vontade de te dar uma abraço. No entanto, tenho que retificar uma coisa. Existe sim uma profissão que é mais a cara de alvinegro do que docente: dono de boteco.
No mais, infelizmente, é tudo isso, sim. E para corroborar com o seu pensamento, tenho total confiança que o Botafogo vai ser campeão brasileiro deste ano. Ou pelo menos chegar na Libertadores. Se não houver uma catástrofe ele joga na Sul-Americana. Tá bem, tá bem, não sendo rebaixado já estou feliz….
14 / Setembro / 2008 às 14:06 |
[...] também os perfis do botafoguense, do são-paulino, do corinthiano e do [...]
19 / Setembro / 2008 às 14:16 |
Caros Alvinegros,
Todo o seu raciocínio é coerente e verdadeiro.
Realmente esta é a história do Botafogo.
E tem sido sempre assim! Desde a própia criação do time. Nada me parece mais heróico é coerente com o sonho de dois meninos da quarta série que em 1904 montaram um time no Largo dos Leões em Botafogo.
Um bando de garotos que com a coragem típica dos insanos e sonhadores, montam seu time de futebol para encarar os clubes já estabelecidos!
Nada mais romântico e encantador do que a história do nosso Glorioso.
Seguramente esta é a nossa Glória.
Glorioso é quem vive sempre com a coragem de ter fé!
Cumplicidade Alvinegra…
Flávio D’Ana
24 / Setembro / 2008 às 01:13 |
[...] também os perfis do santista, do botafoguense, do são-paulino, do corinthiano e do [...]
9 / Fevereiro / 2009 às 00:40 |
Vou fugir à regra. Alem de atleticano (Atlético Mineiro), sou um apaixonado botafoguense que vivo denunciando os malefícios desse bordão: “há coisas que só acontecem com o Botafogo”. A cartolagem usa isso no sentido negativo: para prejudicar nosso time. E o pior é que todos no Botafogo aceitam essa pouca vergonha, inclusive a torcida. Não sou conformado, não. Vivo denunciando à Diretoria a roubalheira contra o Botafogo, nos últimos 20 anos, que tem contribuído e muito prá impedir nossas conquistas. Haja vista o primeiro jogo da final da Copa do Brasil de 1999, em Caxias do Sul, quando dois gols legítimos do Glorioso foram anulados, brecando nossa conquista. Ou as duas últimas decisões do Estadual do Rio, em que o Flamengo foi ajudado. Ou a semi-final da Copa do Brasil 2007, em que uma bandeirinha “contratada” nos tirou da disputa. Sem falar em inúmeros outros jogos em que somos desidiosamente prejudicados, quando precisamos da vitória. Esse dito (bordão) vem a calhar bem com a imoralidade que é o futebol do Rio de Janeiro e do Brasil. Mas eu fico mais triste é justamente com a passividade das Diretorias do Botafogo e com o conformismo de sua torcida. Ninguém reage a essa pouca vergonha contra nosso clube!!!
3 / Março / 2009 às 21:27 |
[...] também os perfis do vascaíno, do tricolor carioca, do santista, do botafoguense, do são-paulino, do corinthiano e do [...]
1 / Setembro / 2009 às 19:52 |
Tirando o final, o texto é muito bom, pois descreve muito bem essa coisa da ‘fé e do acreditar’ botafoguenses, porém discordo muito do fim qdo fala que o botafoguense é tão pacato que nem se incomoda de ouvir falar mal do seu time ou de sua torcida.
acho que aí vc errou, e por muito pois exatamente o oposto, não existe torcida que mais ‘perca a linha’ e muitas vzs até extrapole qdo falam mal do seu clube como a do BFR, talvez por isso seja conhecido como um torcedor reclamão (chorão para os que querem debochar), e isso a muito tempo, o cartunista que ligou o BFR ao pato donald escolheu esse personagem na década de 40 exatamente por isso, depois ainda teve o Cri-cri do Henfil.
Sugiro que leia o texto do Jornalista Mário Filho ( o nosso Maracanã) sobre o Botafogo, ‘o clube de capa e espada’
http://www.movimentocarlitorocha.com/2009/04/o-clube-de-capa-e-espada.html
só uma palhinha do texto:
A gente vê velhos Botafoguenses, curvados pelos anos, e até estranha um pouco. Serão ainda Botafoguenses? Mexam com o Botafogo e verão. Os velhos endireitam logo a espinha, estufam o peito, reacendem a chama do olhar e estão prontos. E não é difícil mexer com o Botafogo. Não há clube de mais sensibilidade à flor da pele, com mais orgulho de Grande de Espanha que o Botafogo. Eis porque ele está sempre disposto a topar paradas, a se meter em encrencas, a arriscar até a própria vida por uma coisinha.
Bastaria, porém, conhecer as origens do Botafogo para compreendê-lo, admirá-lo, mesmo discordando dele. Realmente chega a comover um encontro assim com D’Artagnan no século XX. Não é possível, dirão uns, e eis o Botafogo. Ainda é um personagem de romance de capa-e-espada, com noções de honra dos velhos tempos, ofendendo-se por um nada. E se a gente quiser ir mais longe, deixar os Juízes da França e os Grandes de Espanha, pode chegar até as Cruzadas para descobrir Botafoguenses.
……
mas sobre a parte da fé vc acertou em cheio, veja o vídeo ‘o deus de carlito rocha’, com um texto do Nelson Rodrigues…
http://www.youtube.com/watch?v=LM6rWObDZTE
arrisco que o Botafoguense, tão conhecido como pessimista, no fundo seja o mais otimista dos torcedores, pois apesar de tudo, sempre continua botafoguense e sempre acreditando, mesmo com um pé atrás.