O vascaíno não crê no futuro. Nem no passado

By Rodolfo Borges

A situação pelas bandas de São Januário não é boa e, por alguma razão, o mau momento do time coincide com a a saída de Eurico Miranda da presidência do clube. Na cabeça de um vascaíno desavisado, a explicação é simples: “Eurico tinha má fama e conduta duvidosa, mas dava um jeito de manter o Vasco numa posição digna. Com ele, ainda estaríamos bem. Portanto, volta, Eurico!”

Os torcedores dos outros clubes e alguns lúcidos vascaínos identificaram, contudo, o próprio Eurico Miranda como o culpado pela atual condição do Vasco da Gama. Para nós, é tão evidente que os problemas são anteriores à chegada de Roberto Dinamite à presidência que eu já ouvi gente dizer por aí que o vascaíno é um torcedor mau-caráter, por não se importar como ou o que o seu time faz para vencer.

Pode ser que haja um pouco de mau-caratismo em cada vascaíno, mas eu prefiro explicar a coisa toda de outra forma. O atual torcedor do Vasco se assemelha mais, para mim, a um escravo recém-alforriado do que a um canalha. Acompanhe: a única coisa que um escravo não tem é a sua liberdade, o direito de fazer escolhas. De resto, seu sustento mínimo precisa ser garantido pelo dono, caso este pretenda manter o servo em condições de trabalho.

Ora, durante a gestão de Eurico Miranda, o Vasco foi campeão algumas vezes – e nunca foi rebaixado. Isso parece ter sido suficiente para a sobrevivência da torcida. O cartola palpitava na escalação do time (chegou a demitir técnico rebelde), impunha jogadores ao elenco e posava de dono do clube, mas garantia uns agrados aos vascaínos. Apesar de desconfiarem que havia algo de errado na gestão e estranharem a perpetuação do dirigente no cargo, os torcedores mantinham-se anestesiados, seduzidos que estavam pelos resultados. Mas o Vasco, assim como a maioria dos times do Brasil, não se profissionalizou, a ponto de uma mudança na direção causar transtorno imediato.

Mas chegou a hora de voltar a ser livre, de esquecer os desmandos do passado, de crescer além dos limites do presidente do clube, e os vascaínos ousam renegar a própria liberdade em nome da tranquilidade em uma tabela de classificação. É estranho, mas há cruz-maltinos que desejam a volta de Eurico Miranda, na esperança de que ele os salve milagrosamente do vexame da Segunda Divisão. Desnorteados, tal qual um ex-escravo desamparado que precisa se sustentar por conta própria, os alvinegros enxergam um problema em algo que é solução.

É por isso que eu digo que falta visão de futuro ao vascaíno. Falta pensar no dia de amanhã. Falta preparar-se para o que está por vir. Da mesma forma, as ressalvas à presidência do maior ídolo da história do clube, o apoio tímido ao maior goleador do Campeonato Brasileiro e a relutância em defendê-lo dos constantes ataques de Eurico Miranda me levam a imaginar que também não há passado para o torcedor do Vasco. É como se Dinamite não tivesse uma história de respeito em São Januário. O vascaíno está preso no momento em que vive, quase como que vítima de algum tipo de disfunção cerebral.

Para esses torcedores, Dinamite não é mais do que um presidente. Mas não deveria ser. A presença do maior ídolo da história do clube era o que o atual Vasco mais precisava. Pouco importa neste momento se ele é um bom gestor ou não. Mesmo que ele o fosse, aliás, não seria o bastante para solucionar os problemas do Vasco. E se o clube da Colina chegar à conclusão, no próximo ano, de que Dinamite não vingou, que venha outro. Mas, neste momento, o presidente precisa do apoio do torcedor, e eu não vejo nada disso.

Esta é a hora de sanar as dívidas, recuperar a simpatia das outras torcidas, livrar-se da pecha de vice-campeão e voltar a ganhar um campeonato nacional sem precisar de conchavos do moribundo Clube dos Treze. É hora de alçar vôos mais altos, enfim, do que as campanhas medianas que o clube vem fazendo nos últimos anos.

Resumindo, o Vasco tem uma bela oportunidade para voltar a ser respeitado. E respeito não se ganha de uma hora para outra. É preciso conquistá-lo; e se o Vasco precisar ir à Série B para voltar a ser admirado, que caia. O rebaixamento, aliás, tem exercido um efeito purificador sobre os times mais tradicionais do país. É o que, nestes tempos de desenvolvimento sustentável, poderia se chamar de reciclagem.

Com Eurico Miranda longe, a possibilidade de uma virada de mesa no caso de rebaixamento diminui consideravelmente. E eu espero que os torcedores que estão pedindo por sua volta não o façam pensando no tapetão. Não quero ser forçado a acreditar que de fato todo vascaíno é mau-caráter.

Demorou, mas saiu. Espero engrenar de novo com esses perfis. O do vascaíno me emperrou, mas consegui finalmente liberar. Leia também os perfis do tricolor carioca, do santista, do botafoguense, do são-paulino, do corinthiano e do flamenguista.

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6 Respostas para “O vascaíno não crê no futuro. Nem no passado”

  1. Rafael Fontenelle Disse:

    Impressionante!
    Pode ter demorado, mas na minha opinião não tem uma vírgula que não seja verdade.

  2. Usuario Disse:

    Resumindo..
    Sofredores!

  3. Urubu Baitola Disse:

    Pode crer..

  4. Vascaino Disse:

    hehe
    Show.
    queria ler de outros times tbm.

  5. Rodolfo Disse:

    Estão logo abaixo do texto, Vascaíno. Leia aí! Valeu!

  6. O palmeirense é o torcedor mais ingênuo do país « Os Geraldinos Disse:

    [...] também os perfis do vascaíno, do tricolor carioca, do santista, do botafoguense, do são-paulino, do corinthiano e do [...]

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